sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Mônica Salmaso apresenta o premiado Corpo de Baile no Recife; confira entrevista

Intérprete resgata composições guardadas há 40 anos na turnê em duas noites consecutivas de show, no Teatro Luiz Mendonça, no Pina


Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco
Publicado em: 15/09/2016 16:25 Atualizado em: 15/09/2016 12:43

Mônica Salmaso traz Corpo de Baile ao Recife. Lançado em 2014, álbum é seu trabalho mais festejado. Foto: Turmalina Produções/Divulgação
Mônica Salmaso traz Corpo de Baile ao Recife. Lançado em 2014, álbum é seu trabalho mais festejado. Foto: Turmalina Produções/Divulgação

Mônica Salmaso anda lendo Valter Hugo Mãe. Além do escritor português, a cantora brasileira nascida em São Paulo se distrai com visitas ao sítio da família - "vendo os bichos, as plantas, cuidando das coisas", diz - e costurando bonecas de pano. A voz poderosa dos palcos é sossegada em felicidades simples. Às vezes, grandiosas. Pelo trabalho em Corpo de baile - álbum que Mônica apresenta hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça, no Pina, Zona Sul do Recife -, recebeu o troféu de Melhor Cantora de MPB na edição 2015 do Prêmio da Música Brasileira. Na cerimônia, liderava as indicações: concorreu em quatro categorias pelo disco, lançado em 2014.

Depois de circular por São Paulo, Minas Gerais, Brasília, pelo Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná, Mônica Salmaso percorre as regiões Norte e Nordeste com Corpo de baile, com patrocínio do Bradesco através da Lei Rouanet: "Isso significa muita prestação de contas. Então, além do trabalho viajando e cantando, existe o trabalho de escritório, que toma bastante tempo, mas que faço com prazer, porque é a única forma de viabilizar uma turnê desse tamanho, com tanta gente no palco, em teatros lindos, com ingressos a valores acessíveis." Bolero de satãFim dos temposCurimã e Violada estão no repertório do disco, composto por músicas de Guinga e Paulo Cesar Pinheiro, algumas inéditas há 40 anos. O álbum deve ganhar sucessor no ano que vem: "As ideias são sempre muitas, as vontades também."

SERVIÇO
Quando: Quinta (15) e sexta-feira (16), às 21h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu - Av. Boa Viagem, S/N - Boa Viagem)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Informações: 3355-9821

>> ENTREVISTA: Mônica Salmaso, cantora

Corpo de Baile reúne algumas composições guardadas há décadas. Por que a decisão de resgatá-las? E qual a sensação de fazê-lo?
Quando eu recebi do Guinga e do Paulo César Pinheiro um CD com parte dessas canções que estavam guardadas e inéditas, eu levei um susto. É um material muito sério, de muita qualidade, que não poderia estar guardado há 40 anos. Ao mesmo tempo, eu não me sentia pronta para cantá-lo porque sentia que era uma coisa de muita responsabilidade. Levei dez anos entre o recebimento do CD e a gravação de Corpo de Baile. A sensação é de muita felicidade, de sentir que valeu a pena a espera, porque quando eu me senti pronta para o projeto, ele tinha muito mais consistência dentro de mim. E eu sou muito orgulhosa do resultado. É um projeto muito importante para mim.

Como avalia esse álbum? Vê Corpo de Baile como seu melhor momento?
É um grande momento para mim, profissionalmente, no sentido da realização de um projeto que é grande e importante. Mas eu sempre tive a mesma dedicação a cada trabalho. São frutos de muita paixão pelo que eu faço, entrega e mergulho. Mas claro que me sinto melhor, com mais experiência, com mais conhecimento do que eu faço hoje depois dele. 

Bolero de Satã, popular na voz de Elis Regina, é um dos pontos altos do repertório. Foto: Turmalina Produções/Divulgação
Bolero de Satã, popular na voz de Elis Regina, é um dos pontos altos do repertório. Foto: Turmalina Produções/Divulgação
Como funciona seu processo artístico/criativo? Como desenvolve os espetáculos, as interpretações?
Cada trabalho, cada projeto funciona de um jeito. Há os projetos fechados como foi o CD Afro Sambas, e os projetos totalmente abertos, como foram os CDs Voadeira, Trampolim e Iai. E os que nascem a partir de shows, como foi o caso do Alma Lírica Brasileira. Eu vivo juntando canções que me dizem algo de importante, que me emocionam, que me encantam no meu "balaio pessoal"... E quando alguma idéia de um projeto novo surge, eu recorro a esse balaio e a novas escutas pra desenhar o novo projeto. Não tenho um sistema, mas é mais ou menos assim.

Como é sua relação com Pernambuco? Tem memórias afetivas com o estado? Referências musicais pernambucanas? 
Eu tenho um sonho antigo de fazer uma viagem pelo interior de Pernambuco, para ver de perto o artesanato, a culinária, as festas e danças de rua. Mas esse sonho ainda não consegui realizar. Fui várias vezes ao Recife, que é uma cidade que eu adoro. E a Olinda, cujo nome já diz tudo. Gosto muito do público que temos aí, do Teatro de Santa Isabel, do Marco Zero, do Brennand, do Nóbrega, com quem cantei algumas vezes. Do Naná, que foi um gênio. Das ruas e das rendas que eu tenho de Olinda, da comida do restaurante Chica Pitanga e do Oficina do Sabor, do Hotel Sete Colinas, onde estive algumas vezes com meu filho ainda pequeno. É, de verdade, um lugar onde eu fico feliz!

O percussionista pernambucano Naná Vasconcelos participou do seu segundo disco, Trampolim. Como era sua relação com ele? Tem alguma memória marcante?
O Trampolim foi meu segundo CD, mas foi o primeiro em que a escolha do repertório foi aberta. Eu era estreante de tudo, bem nova. A presença do Naná enobreceu o CD. Me senti muito presenteada pela maneira linda como foram as sessões de gravação dele comigo. Muito generoso, muito concentrado. Ele estava feliz por ver uma cantora tão nova de São Paulo interessada em gravar um canto de escravos, uma canção de reisado, outra do repertório da Clementina de Jesus. Depois nos encontramos de novo, quando eu fiz parte do grupo Orquestra Popular de Câmara. De novo, foi uma alegria. Grande artista, o Naná!

Seus álbuns percorreram diferentes países do mundo. Como é recebida nesses lugares? Tem algum ponto no globo, à exceção do Brasil, onde mais goste de fazer shows?
Eu gosto de viajar, gosto de sentir que estou cantando longe de casa e de pensar "como será que eles vão entender essa música?" Em geral, o fato de ser música brasileira já é um cartão de entrada que facilita a escuta. As pessoas gostam da cultura brasileira, recebem como um sol quentinho chegando. Vão abertas. Só tive experiências boas. Mas não tem um lugar onde eu prefira cantar.

Já conquistou o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Cantora de MPB duas vezes. Na mais recente, pelo trabalho em Corpo de Baile. O que esse reconhecimento lhe mostra? O que esses dois trabalhos (premiados) tinham de mais especial em relação a outros da sua carreira?
Não sei se eles são trabalhos melhores... Para mim, foram feitos com o mesmo capricho. Mas gosto de pensar e de sentir que eu hoje tenho mais experiência, e que isso pode se refletir nos trabalhos pra quem os escuta. Eu fiquei muito feliz com esses prêmios. Muito. São retornos positivos que deixam a gente contente e reforçam a vontade de continuar.

Como vê as composições brasileiras atuais? Há nomes que, ao seu ver, merecem destaque, devem ser mais cuidadosamente observados? 
Tem bastante gente fazendo música boa no Brasil. Eu gosto especialmente do Sérgio Santos, do Breno Ruiz, do Thiago Amud (que tem um trabalho bem autoral e interessante), do Alexandre Andrés, Mauro Aguiar, Ian Faquini - que eu ouvi recentemente pela minha amiga querida Paula Santoro. Gosto da Anna Paes e da Iara Ferreira, que fizeram um CD lindo chamado Miragem de Inaê. Tem também a Rhaíssa Bittar, que é uma cantora de São Paulo com um trabalho muito autoral e bacana... Tem gente muito boa fazendo música. As vias de acesso a essa produção é que hoje estão complicadas, estreitas e em crise.

Como é Monica Salmaso fora dos palcos?
Uma pessoa que gosta de fazer outras coisas, bordar, fazer bonecas de pano, lavar louça, ser mãe, fazer planilhas no Excell, assistir a filmes e seriados no sofá, ir ao sítio, ver os bichos e as plantas, cuidar das coisas.... Sou uma cigarra-formiga. Gosto de resolver as coisas e de trabalhar. Gosto muito de realizar a vida. Gosto de conhecer o que vale a pena, de me emocionar com coisas de verdade. E, ultimamente, gosto muito de ler o Valter Hugo Mãe.

Fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2016/09/15/internas_viver,665114/monica-salmaso-apresenta-o-premiado-corpo-de-baile-no-recife-confira.shtml